Linyon, o negócio que ajuda refugiados a entrar no mercado de trabalho

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Nem todas as empresas têm a função única e exclusiva de ganhar dinheiro. Um novo tipo de empreendimento, chamado negócio social, tem como um de seus objetivos principais resolver algum problema social específico ao mesmo tempo que é autossustentável financeiramente. Conheça a história da Linyon, uma empresa que ajuda refugiados e imigrantes a encontrar ocupação profissional.
Em 2011, a Marcela Milano foi para a Irlanda fazer um intercâmbio para aprimorar o seu inglês de negócios. Nessa viagem ela começou a reparar como a vida de um imigrante ou refugiado é difícil. Falta de respeito, preconceito e assédios eram constantes pelo simples fato de ela ser estrangeira. Inclusive, o seu último empregador, sabendo que ela tinha viagem marcada de volta para cá, deixou de pagar mais de mil euros devidos por horas trabalhadas.
Algum tempo depois de retornar dessa viagem, já no ano de 2015, ela decidiu começar um blog sobre o tema refugiados. Como experimento, ela decidiu andar de burca pelo centro de Curitiba e gravar a reação das pessoas com uma câmera escondida.
Em nossa conversa, ela relatou:

Recebi as maiores ofensas por simplesmente ser – ou estar – diferente. Xingamentos, risadas, barulho de bombas, cantorias e até um sinal da cruz me seguiram.

Na metade de 2015, quando estava organizando um evento sobre empreendedorismo para seu antigo emprego, ela conheceu o André Pegorer, fundador do Nex Coworking e polímata da nossa rede, e contou o seu projeto para ele. Assim que ela terminou a história, foi informada que poderia transformar esse projeto em um tipo de empresa diferente, chamado negócio social. A partir dali, as coisas começaram a mudar rapidamente. Cerca de um mês depois ela já havia saído do seu emprego e, dentro de mais um mês, ela embarcava para uma grande aventura no estado que mais recebe refugiados do país.

A viagem para o Acre.

O André acabou apresentando a Marcela para várias pessoas que se provaram chave para o surgimento do que viria a ser chamado de Projeto Linyon. Uma delas foi o jornalista Márcio Pimenta, que criou junto com a empreendedora um projeto para fazer uma reportagem sobre refugiados no Acre. Por um acaso do destino, conseguiram um patrocinador que financiou toda a viagem.
Acompanhar com os próprios olhos como é o primeiro contato e a realidade dos refugiados que acabaram de chegar no país era o que faltava para confirmar de vez a decisão de tocar o Projeto Linyon em frente. De volta para Curitiba, logo em seguida conheceu a Raquel, que viria a ser sua sócia no negócio social, e começou a colocar as ideias em prática.

O modelo que deu errado e a desistência.

As atividades da Linyon começaram em outubro de 2015. O produto era semelhante ao de uma Agência de RH, porém fornecendo mão de obra exclusivamente de refugiados e imigrantes. As empreendedoras sociais não conheciam o mercado, então conversaram com muita gente da área para poder desenvolver o produto.
As dificuldades começaram logo em seguida. O que parecia difícil, convencer as empresas a contratar, na verdade foi o mais fácil. Já o público que seria beneficiado, os refugiados, demoraram a confiar no projeto. Foram três meses até conseguir o primeiro currículo! Entretanto, a satisfação de quem conseguia uma alocação, era sempre emocionante.
Nas palavras da Lovely Miraciin, uma haitiana de 24 anos:

As meninas do Linyon me ajudaram a achar um trabalho que gosto muito. Aqui as pessoas me tratam bem e com o meu salário posso ajudar minha família no Haiti e ser independente, sem precisar de ajuda dos outros. Agora posso ter sonhos de novo. Estou muito feliz!

Mas a crise no país se agravou em 2016. As empresas não estavam contratando nem gente daqui e tinham muito menos capacidade em absorver essa mão de obra de fora. Soma-se a isso o fato de, por causa do modelo de negócios, não existir nenhum tipo de previsibilidade de caixa e também a algumas contratações facilitadas terem dado errado, e o negócio social se provou insustentável com aquela estrutura. Um investimento que estava pra sair era o que iria possibilitar que as coisas continuassem funcionando. Mas, na última hora, ele foi recusado. Foi a gota d’água. Marcela e Raquel decidiram abandonar o negócio.

Um golpe de sorte para a Linyon e o modelo do negócio social.

Dois dias depois, elas receberam a notícia que foram selecionada para o Instituto Legado, uma aceleradora de negócios sociais. Foi a injeção de ânimo que precisavam para não deixar a Linyon morrer. “Depois nós ficamos sabemos que entramos por causa de um sorteio. Foram selecionadas duas organizações de refugiados, mas eles só pegam uma para cada tema.”, nos disse a Marcela.
Durante a aceleração, as empreendedoras da Linyon receberam diferentes treinamentos sobre gestão de negócios. Naquele momento, as coisas começaram a mudar. Nenhuma delas tinham conhecimento em como colocar um negócio para funcionar, mas dali em diante, além de serem educadas nas melhores práticas de administração para negócios sociais, também começaram a contar com uma poderosa rede de mentores do Brasil inteiro. Gente importante, diretores de grandes empresas e investidores, dispostos a ajudar para que os refugiados tivessem uma melhor inserção no mercado de trabalho nacional.

A nova estrutura da Linyon.

Adquirindo o conhecimento necessário para empreender, contando com bons contatos e tendo uma apelo social muito forte, o futuro começou a acontecer no Linyon. Uma série de cursos desenvolvidos para capacitar refugiados para o mercado de trabalho, acabou indo parar dentro de um projeto no ISAE/FGV e despertou o interesse de outras instituições nacional que trabalham com o assunto. Esse sucesso foi determinante para o projeto ser escolhido vencedor da aceleração social e receber 10 mil reais em investimento.
O dinheiro, a premiação e a visibilidade abriram ainda mais portas. Com o apoio de um time de especialistas, fez elas organizarem a estrutura do negócio social em um CNPJ de ONG, que será responsável por treinamentos e capacitações e pode participar de editais públicos, e um outro CNPJ de empresa, que será responsável por aulas de idiomas com professores refugiados e mediação cultural em empresas. Com os dois patrocinadores, o Instituto Legado e a Brazil Foundation, hoje a ONG pode ser considerada sustentável financeiramente. Já a empresa, está na fase de validação de um produto de educação em língua estrangeira utilizando refugiados como professores.
Nessa jornada, a Linyon já impactou diretamente 134 refugiados, já deu 9 capacitações e fez parceria com 6 empresas diferentes.
Você conheceu a história da Marcela Milano e seu negócio social, a Linyon. A Polímatas é uma rede de troca de conhecimentos sobre gestão e negócios. Nossos polímatas, como chamamos os empreendedores que fazem parte da rede, como a Marcela faz, participam de eventos e encontros nos quais eles contam suas histórias, dividem suas dificuldades e aprendem uns com os outros.

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